terça-feira, 8 de novembro de 2016

Inimigos por Luís Fernando Veríssimo

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Inimigos por Luís Fernando Veríssimo


O apelido de Maria Teresa, para o Noberto, era "Quequinha". Depois do casamento, sempre que queria contar para os outros uma de sua mulher, o Noberto pegava sua mão carinhosamente, e começava:
- Pois a Quequinha...
E a Quequinha, dengosa, protestava:
- Ora, Noberto!
Com o passar do tempo, o Noberto deixou de chamar a Maria Teresa de Quequinha. Se ela estivesse ao seu lado e ele quisesse se referir a ela, dizia:
- A mulher aqui...
Ou, às vezes:
- Esta mulherzinha...
Mas nunca mais Quequinha.
(O tempo, o tempo. O amor tem mil inimigos, mas o pior deles é o tempo. O tempo ataca em silêncio. O tempo usa armas químicas.)
Com o tempo, Noberto passou a tratar a mulher por "Ela"
- Ela odeia o Charles Bronson.
- Ah, não gosto mesmo.
Deve-se dizer que o Noberto, a essa altura, embora a chamasse de Ela, ainda usava um vago gesto de mão para indicá-la. Pior foi quando passou a dizer "Essa aí" e apontar com o queixo.
- Essa aí... 
E apontava com o queixo, até curvando a boca com um certo desdém
(O tempo, o tempo. O tempo captura o amor e não o mata na hora. Vai tirando uma asa, depois outra...) Hoje, quando quer contar alguma coisa da mulher, o Noberto, nem olha na sua direção. Faz um meneio de lado com a cabeça e diz:
- Aquilo...

(VERÍSSIMO, L. F. Novas comédias da vida privada. Porto Alegre: L & M, 1996)

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